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Um sorriso de Charlot

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Tu que me olhas sorrindo,                                                           Qual é a paranóia?                                                              Aonde o inferno em que vives?
À medida que conheço a loucura dos outros, e a minha, Vou ficando mais sozinha. O mundo vai sendo pequenino.
Tenho saudades de quando não sabia… Se alguém me sorria era bom! Era sim!
Agora cada olhar é um desaire. Estranhos que choram por dentro, Ou fingem ter sol no coração… Tristes sapos é o que são.
Insistem em ver neles seres bonitos? Pois eu não.
Tolos a quererem comer e guardar os bolos… Julgam-se senhores de boa voz Mas são apenas sofredores Em busca da teta perdida… Lordes em fralda de camisa…
Fariam rir se não fizessem chorar!... Como a maioria de nós.



Eu volto para te buscar

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- Fica aqui. Espera que um dia volto para te buscar. Confia.- e afastou-se devagarinho. A menina ficou. Era obediente. Tinham-lhe ensinado a ser boazinha. Por isso esperou. Engoliu as lágrimas entre soluços. Olhava o caminho à espera que a espera terminasse. - Eu volto.
Mas passaram muitos dias depois desse tal dia. E passaram anos, e depois ainda mais outros anos. Crente de que a menina se encontrava à espera, ela continuava a vida. Mortificava-a saber que dificilmente seria capaz de voltar. O destino trouxera-a para bem longe de casa. Cruzara um largo oceano e perdera-se do pátio da escola africana.
Via em sonhos, que mais pareciam pesadelos, o exacto local aonde deixara a criança. Imaginava-a sentada, quieta, sossegadinha, de esperança acesa no passar inútil do tempo. O que teria sido feito da menina?- atormentava-se e sentia-se culpada.
De noite parecia-lhe amiudadas vezes ouvir um choro infantil, um pedido murmurado:- Vem! Vem-me buscar! Podia lá!... Além disso prometera que voltaria mais …

O homem desesperado

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Queres que tudo pare? Tens vontade que o tempo mude? Apetece-te fechar os olhos e estar num outro lugar? Acontece-te pensar que não suportas mais?
Para ti o mundo está todo esquisito?… Conheces a sensação de que nada parece real? Tens a impressão de estares a alucinar?…
Sentes-te por vezes tão, mas tão triste como se fosses rebentar? Ouves palavras sussurradas no barulho que se cala? E distingues gritos de dor quando a noite chega, ou quando a chuva cai? Choras? Choras de madrugada?
Tens alguma esperança? Nem que seja uma simples esperança, esperança infundada, esperança de criança?
Acreditas? Acreditas ainda que te digam que deliras? Acreditas num qualquer faz-de-conta que sim?
Estás habituado? És um conformado? Julgas que não há mais além disto? Aceitas os dias sempre da mesma maneira? Foste idoso a tua vida inteira?
Se estás fora da festa, e nenhum consolo te resta, e ardes no inferno…
Se não tens nem um só amigo, E perdeste aos dados o chão deixado pelos antigos, o chão que supostamente era eterno…

Um melro que não queria fugir

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Tantas vezes penso, E dou por mim a imaginar como seria eu, Se não fosse assim?
Se não me tivessem moldado, forçado, espartilhado, Se não tivesse tido mordaças na boca, Quem estaria destinada a ser?
Porventura alegre, nervosa? Comunicativa, tímida, generosa? O que há dentro de mim?
Vem-me a esperança de que podia ter sido melhor, bem melhor…
E convenço-me de que um dia venho a ser de facto eu. Quebro as amarras e vergo as grades, Desço da torre malvada pendurada numa trança.
E nessas alturas de triunfo e revolta Dou-me conta que sou o que de mim fizeram, E que não haveria eu sem ser assim.
Ou seria uma folha em branco, Um livro sem páginas escritas. Uma louca ou uma insana.
Vejo que sou, Apenas sou. E que me invento com a linguagem que aprendi a usar. Papagaia sem fala, Perdida, Largada ao vento.
Tantas vezes penso!... Mas penso dentro da cela que não vou abrir, Então como me atrevo a resistir?
Com que direito digo que tenho alguém em mim?

Complexo de mim

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Ermelinda sente a cabeça a latejar. Encosta a fronte à vidraça fria e deixa-se ficar quietinha, a ver o mundo rolar. Por muito que não quisesse, só consegue pensar “Que grande perda de tempo! Que grande perda de recursos!”
Passavam-lhe na ideia os anos em que o pai trabalhara em prole da família, também em prole dela portanto. A quantidade de vezes em que a mãe se privara do seu justo quinhão de comida para que ela pudesse medrar, vingar. As leituras, o dinheiro gasto em mil e um livros de auto-ajuda, em revistas e periódicos. Pesquisas… tantas que fizera! Planos… tantos que fizera!... “Perda. Perda de tempo.” Tudo se resumia àquela verdade crua e imutável, independente de considerações e de opiniões: era maluca. Maluca, e pronto.
Porque em muito pequena não fora capaz de fazer as ligações precisas entre neurónios não conseguia agora assimilar correctamente as mensagens dos transmissores. Interiorizara valores fictícios e dera-lhes importância de verdades. Perdera-se na imaginação e não …

Posso ir contigo?...

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Leva-me contigo. Vamos aonde tudo é possível e o algodão doce é mesmo feito de açúcar, e os caramelos ainda pegam nos dentes, e as rosas continuam a ter espinhos mas são bonitas de morrer. Dá-me a mão, e leva-me. Leva-me contigo…
Pouco importa se não levamos mapa nem sabemos de geografia, nem se a terra é mais redonda nuns dias do que noutros. E mesmo que faça frio, tanto frio, e mesmo que faça sol e haja calor, e até se o céu estiver riscado de relâmpagos e trovões, leva-me ainda assim.
Enquanto o coração bate e as pernas respondem, e os olhos sonham e a alma vibra. Enquanto temos sangue e temos força. Antes de ser tarde para mais nada. Antes que seja tarde demais.
Lá fora ainda é claro, mas debaixo das árvores a noite vem mais cedo. As florestas são cheias de sombras e de recantos escuros. E vultos escondidos espreitam atrás das árvores. Leva-me… Perdemos os sapatos e estamos descalços porque fugimos há tempo demais. E as nossas roupas são farrapos com sombras do que foram um dia. Os cabelos…

Esqueceu-se de me levar...

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Os olhos estavam inchados de chorar, e do nariz encardido escorria um fio de ranho transparente, quase líquido. As faces do garotinho eram trigueiras e bochechudas. Se não fosse pela roupa esfarrapada, e pelos sapatos descolados pareceria uma criança comum, daquelas que choram sempre que caem no parque infantil. No entanto em toda a fisionomia se distinguia uma tristeza tão, mas tão grande que parecia não caber inteira dentro do corpo franzino. - Porque choras?- quis saber eu. Silêncio e mais silêncio. Fungadela e outra fungadela. - Não estejas assim! Doí-te alguma coisa? Fizeram-te mal? Diz! O que foi?- nunca soube lidar bem com lágrimas. Há qualquer coisa nelas que me faz recordar outros tempos, outras pessoas que choravam… - Não tenho ninguém.- respondeu por fim. - Ninguém? Como assim, não tens ninguém? Aqui ao pé de ti? - Não. Não tenho ninguém no mundo.- e o choro de pequeno animal batido voltava. Seria órfão o pobrezinho?... - O teu pai e a tua mãe? - Ele morreu, faz mais de um ano.- na v…