sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Mendigo, sem abrigo



Hoje passou por mim um mendigo,
Desses que dizem ser sem abrigo.
Trazia a tristeza do mundo nos olhos sombrios.
Porquê tão triste?
Porquê tanta escuridão no rosto por barbear?
Os ombros vergados pelo peso da vergonha de nada ter…
As roupas mal tratadas,
Os sapatos desengonçados…
Será por isso que quase chorava?
Hoje passou por mim um mendigo,
Desses que dizem ser sem abrigo.

E eu que todas as noites durmo numa cama,
Eu que me levanto e deito por baixo de um tecto,
Que vou ingerindo as refeições que são de bom tom ingerir…
E eu?
Porque vou triste eu?

Que nos falta?
Que me sobra a mim que possa partilhar com aquele mendigo?
Que tem ele que possa dividir?

Se lhe falasse será que me sorria?
Se ele me falasse será que eu o ouvia?
A tristeza que nos une separa-nos do resto das gentes.

Levanta o rosto!
Não lhes dês o prazer de te verem chorar!
Porquê?
Para quê?
Ninguém te vê,
Ninguém me repara.

O mundo é tão grande, não é?
E olha como somos pequeninos nós dois!
Imprestáveis como jornais velhos e amarrotados…

E depois que tem?
Todos eles gostariam de ter as ruas para andar,
Como tu tens na tua louca liberdade.
E eu que no Verão sou fada e deusa das praias?
É minha toda aquela areia para pisar.

Vagabundos, talvez…
Sem abrigo isso é que não.
Abriga-nos a caverna quente do coração.
Vem, dá-me a mão.
Há espaço para mais um debaixo do papelão.


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

"Sem lenço, e sem documento..."



Mudaram-na mais uma vez.
E eu bem que a tinha avisado…
Choros e mais choros,
Gritos e tantos gritos…
Aqueles olhos verdes serenos aonde vive tanto desassossego.
Os cabelos que eram louros e são escuros agora.
As lágrimas redondinhas, transparentes.
E os dias da semana na ponta da língua!
Minha querida!
Hoje que dia é?
E amanhã?
Sabes os dias todos, viva!
Não chores meu amor, não chores.
Meninas crescidas falam.
Sabes falar.
Olha como dizes bem as cores, e contas até dez!

Outra vez novas amigas e uma cama diferente.
Outros nomes para perceberes.
Será que mandaram a boneca com ela?...
Como se chama a tua boneca?
E era Agatita, Dora Explorador, Noa…
E era o macaco e o cão.
Que lhe tenham mandado a boneca, por favor!
Minha princesa…

Olho para ela e é ainda o bebé de há vinte anos atrás.
A curva arrebitada do nariz pequenino.
As covinhas no rosto redondinho.
Os beijinhos…
Deus, porque és ruim para a minha menina?
Porquê?
Não é justo tanto sofrimento assim!
Nossa senhora do céu,
Já que és madrinha dela,
Não a faças chorar.
E se és mesmo a mãe de todos nós
Fá-la sossegar.
Diz-lhe que não está sozinha,
Ensina-lhe uma nova cantiga,
Mostra quanta ternura o teu coração abriga,
E faz com que ela encontre por fim o seu lugar.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Fechada a porta, deitada fora a chave



-Tu, o que queres?
Fechava-se em copas…
-Vamos! Não temos o dia todo!
Nada de nada.

-O que queres?
Sabia lá!..
Fazia lá ideia daquilo que queria!...

Fingia.
Fingia que sabia.

O mundo não tem muita paciência com quem é hesitante.
-Escritor preferido?
-Fulano tal.
-Compositor predilecto?
-Beltrano.
-Pintor adorado?
-Sicrano! Claro, Sicrano.

Era fácil.
Bastava responder.
Mas se perguntado daquela maneira…

-Tu, o que queres?...
Ora!

D. Juan decrépito, desprezando como inúteis, antigos amores.
Leão velho e desdentado, esfomeado, frente a veados de sangue novo.
Pobre eunuco castrado, instado a copular com bailarinas das mil e uma noites.

-Não temos o dia todo!

Á volta cães vadios passeavam sem peladas de coleira.
Gatos escanzelados miavam alegrias simples em telhados quentes.
Aves de arribação exultavam loucuras errantes.

-O que queres?
-Não ter de saber!

Queria não ter de saber.
Será que servia como resposta?...
Era bom que sim.

Para que lhe perguntavam aquilo que a tinham forçado a esquecer?

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Que saudades da minha terra!...



Tenho saudades da calma tranquila das tardes da minha terra.
Tenho saudades do vento que era morno e era quente,
e batia devagarinho na face,
agitava descaradamente os cabelos.

Quem me dera agora aquele gosto bom de fim de dia!
Queria aquelas cores!...
Era vermelho,
era laranja,
ouro e fogo…

E as estrelas?...
Olhá-las de novo tomara eu!
Mas estas estrelas não brilham de igual maneira.
Nem o céu é de um veludo tão negro,
Nem os grilos cantam perto dos ouvidos…
Cri-cri-cri…
Cri-cri-cri…
Esperem, esperem por mim!...

Que saudades!

O mar era um tapete comprido,
Um tapete estendido durante metros e metros…

E eu nunca tinha frio.
Nem sabia o que era o frio.
Tinha pai, mãe e irmã,
E uma rua que era minha,
E possuía a certeza de tudo.

Não sei se lá vou voltar algum dia,
À minha terra…
Ou se vou antes morrer longe, deste lado do mar.

Tu, que vais pisar de novo aquela areia que já foi minha,
Leva um beijo meu às palmeiras e às gaivotas,
Dá um abraço ao capim molhado de cacimba.
E se fores ao velhinho Vasco da Gama empurra um baloiço no meu lugar,
Cada vai-e-vem que ele fizer,
Serei eu a chorar.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Ciranda, ciência e sofás quentinhos



Às vezes temos de dar a volta a todo o quarteirão,
só para perceber que temos o melhor pedaço de chão…
Precisamos de bater a várias portas fechadas para mendigar o que já possuímos e é nosso…
Temos necessidade de ouvir da boca de outros aquilo que sempre nos ensinaram em casa…
Acreditamos se nos mostram que é, e desconfiamos do que conhecíamos…

Somos atraídos pelo abismo, mas sabemos que não temos pé…
E damos por nós a mergulhar em águas geladas que nos afogam certamente…
Temos sede e fome de bater com a cabeça desprotegida em todas as esquinas cortantes deste mundo…
Fingimos que inventámos a roda, quando é tão miseravelmente pequeno aquilo que descobrimos!…

Praguejamos e esperneamos,
Bracejamos e reclamamos,
Vociferamos contra o destino.

Porquê esta absurda vontade de testar limites?
Porquê esta irracional apetência para a perdição?

Disseram-me um dia que tenho veneno no sangue.
Vejo agora que todos boiamos em cicuta e arsénico,
tal qual mosquitos afogados em mel,
igual a moscas apanhadas com fel.

Se ao menos não fosse tão difícil apenas crer!...
E se na consumação dos séculos tudo for  como os antigos pregavam?...

Abjecta ciência esta que nos tira o sono,
nos rouba o conforto da inocente sabedoria…
sem em troca nos oferecer diferente saber,
sem nos dar uma nova magia.


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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Any body out there?...



Tira o cabelo dos olhos e vê a rua.
Vê como a chuva lavou a calçada…
Repara na cor negra do alcatrão mal cuidado.

Afasta,
Afasta as lágrimas.
Engole os medos e os tremores.

Precisas de ver claramente,
Porque é Inverno e o tempo está escuro.
Toma conta das horas,
Não vá a madrugada surpreender-te acordado.
De noite deves dormir.
Sempre.
Lá fora ainda é dia…
Isso.
Vai em frente, faz-te ao caminho.

Na próxima esquina fica a Primavera,
E voltas a ser menino.
Cala,
Cala as palavras que querias dizer.
Segue.
Segue.

Um pé à frente do outro,
Deixa que venha o que tiver de ser.
És livre.
Sentes isso?