sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Pancadinhas de Moliére



Todas as estradas acabam, têm de acabar.
Está tudo bem, não faz mal nenhum.

Não, não é preciso chorar!

Quando viemos para cá, sabíamos que ia ser assim…
Aceitámos.
Lembram?

Claro que não lembram!...
Mas também, como podiam?

Mal aprendemos alguma coisa, morremos…

Desce o pano sobre os aplausos silenciosos.
A última rosa negra caiu no palco moribundo de nostalgia.
Apagaram-se os holofotes cansados, tão cansados de iluminar.

Que querias?
Diz!
Estou aqui.
Fala!

Não.
Para quê?
Nada digo.
Perdi a fome da falar,
Assim como esqueci o cheiro do oceano quando a tarde dorme.
Da mesma forma que desaprendi as lantejoulas na brisa suave da praia.

Hoje sou menos do que nada, e esse nada é mais do que alguma vez fui.

Tudo tão inútil,
tão escusado…

Qual o Deus louco que me fadou em melancolia?

Fecho os olhos, em fim de romaria.
Não me prendam aqui!

Cabeceio.
Tenho sono!
Levantei-me de madrugada.
Foi grande o meu dia.

Algures alguém ainda me abana,
em vão alguém ainda me chama…
Mas não os ouço.
Nunca mais os hei-de ouvir.

Eu já não sou daqui.

A vida é uma colcha de retalhos



Leonel chegou a casa com um sorriso de orelha a orelha. Tinha despachado a granda mula em alto estilo. Ah, se tinha! Quem julgava ela que era, afinal? Uma dama, não? Uma lady!... Devia de ser, devia!... Uma mula, isso sim! E das grandes, das piores. Daquelas que se acham senhoras!... Primeiro eram só sorrisos e maneiras sedutoras. Que sim, e que mais isto e aquilo. Acenos e gingares de ancas provocatórios. Mensagens e telefonemas insinuantes, com direito a fotografias e tudo. E depois, olha!... Depois a fazer-se de fina!... Não, porque não. Porque isto, e porque mais aquilo. Que acreditava no amor… Que julgava que era assim, e que ia ser assado… Pois, pois! Encostara-a logo à parede, e deixara bem claro ao que vinha. Sim, ou sopas. Se queria, queria. Se não, adeus, que há muito gado  na pastagem. E ela cedera. Claro que cedera! Pois se era mesmo isso que estava a pedir, com aquela voz de santinha carunchosa!... Ah! E ainda por cima chorara! Tivera o desplante de chorar baba e ranho, a fingidona!... Sempre embirrara com mulheres que choram. Chorar é que não. Seca! Depois do trabalhinho feito, mandara-a vestir-se e pôr-se com dono, que ele, Leonel, estava com pressa. Mula!...

Regina chegou a casa com uma lágrima teimosa a escapar-se dos olhos verdes. Mais outro engano! Como se tinha equivocado! Deus! Será que alguma vez ia ter juízo na cabeça? Sempre aquela mania fácil de acreditar, de sonhar… Sempre a tendência para fantasiar, e para transformar sapos asquerosos em príncipes reluzentes… Quantos tinham sido já os erros? Nem sabia! Homens somavam-se atrás de homens. Relações fugazes, ou outras mais duradouras, que importava? Todos eles eram iguais. Cópias tiradas a papel químico uns dos outros. Mentirosos, hipócritas, dissimulados! Bestas com as calças nas mãos, e o cérebro embrulhado em pintelhos mal semeados. Este fora outro… Tanto que ela tinha sonhado com aquele dia! Tanto que se tinha arranjado, e perfumado para ir àquele encontro! Tantas palavras que havia ensaiado!... Certa de que este seria diferente, de que talvez fosse o seu grande amor por fim… Nada! Mais outro. Apenas mais outro desgraçado qualquer. E tinha-lhe chamado nomes, a ela que nada mais pedia do que um pouco de carinho e de afecto. Tinha-lhe dito que ela era porca, ordinária, mulher da vida… Não era nada disso! Não era! Era apenas uma mulher triste e sozinha que ainda sonhava. Mas estava disposta a deixar de sonhar! Estava no limite das suas forças.


Noutro lugar, Angélica acabara de atirar o computador de encontro à parede. Tinham sido semanas de preparativos para nada. Semanas e horas intermináveis de espectativa. Esperara primeiro com confiança, depois com paciência, e por fim já nem esperara sequer. De que lhe servia o tão apregoado talento para escrever se nem um miserável concurso de literatura para principiantes conseguia ganhar? Sim, para que lhe servia?! Desde os bancos da escola que lhe diziam que ela era um génio da escrita em potência, que se quisesse seria uma revelação, um fenómeno, que isto e aquilo! Tretas! Só conversas para embalar criancinhas. Génio nada, fenómeno nada! Farta! Estava tão farta! Espreitou o seu reflexo no espelho, e a imagem que viu pouco lhe dizia sobre o inferno que lavrava dentro de si. Composta como sempre, alinhada como convinha. Penteada, maquilhada. E mais logo viria o Fernando do trabalho, e pediria o jantar e o jornal. Sem querer saber sobre ela, sobre o que a afligia. E depois chegariam as crianças da escola e entre gritos e gargalhadas pediriam também elas o jantar. Sem repararem sequer nela. Porcaria de vida! Ninguém!... Que faria agora sem computador? Aonde encontrar o consolo e o amparo que as letras sempre lhe traziam? Mais só do que nunca, colocou o avental e foi preparar o jantar.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

No tears, no fears



Não existe poesia na tristeza, assim como não existe beleza na solidão. Pois, claro, há muito quem seja contra! Há muito quem defenda a maravilha de um sentimento melancólico, ou a virtude da tão apregoada privacidade. A tristeza e a solidão são cancros, são como a ferrugem que corrói a melhor chaparia. Não são sentimentos poéticos, nem belos, são antes miseravelmente desgraçados.

O Duarte era um homem de quarenta e muitos anos que, à semelhança de tantos outros homens dessa idade, se sentia abandonado num mundo superlotado de ilustres desconhecidos. E não é que o Duarte vivesse sozinho, nada disso! Partilhava o mesmo vão de escadas com outros homens, alguns mais velhos, outros mais novos. Companhia física não lhe faltava, mas não possuía o menor laço afectivo com nenhuma criatura vivente. Da pobreza indigente da sua vida, ressaltava a saudade que trazia impressa na alma. Saudades de um tempo distante em que tinha tido um tecto, um lar, amigos e familiares, um nome honrado. Perdera tudo, como se perdem os grãos de areia que se colam às solas dos sapatos nas travessias do deserto. Perdera tudo, como se o tudo que perdera fosse feito de pó. Nada sobrara. O Duarte estava triste, e estava só. Se alguém lhe perguntasse se conseguia vislumbrar vestígios de poesia, ou beleza na sua situação, ele riria pela certa. Porque os miseráveis quando riem, choram sem lágrimas. E lágrimas são um luxo amaricado a que alguns de nós não se podem dar ao luxo. O Duarte não chorava. Talvez por isso houvesse quem o julgasse conformado, acomodado… Não, não! O Duarte era muito infeliz. Categoricamente infeliz.

A Gisela tinha vinte anos de idade. Era bonita, simpática, bem falante. Não possuía inimigos, pois a vida ainda não lhe dera tempo para tal. Dava-se bem com quase todos os que a rodeavam, mas isso não impedia que se sentisse solitária na maior parte do tempo. Solitária e amargurada. Solitária e esquecida. O mundo esquece com facilidade aqueles que não se fazem lembrar, aqueles que não optam por se instalarem em bicos de pés. Da Gisela poucos se lembravam, a não ser para que ela lhes satisfizesse as necessidades pontuais de comida, abrigo, cuidados. Gisela, tenho fome. Gisela, estende a roupa. Gisela, olha as compras. Vai regar as flores. Gisela, Gisela, Gisela. Dela se dizia saber levar bem a vida, uma vez que não lhe escutavam queixumes ou recriminações de qualquer espécie.. Ninguém via quando ao fim do dia, a Gisela encostava a fronte escaldante ao frio da vidraça e chorava. Ninguém queria sequer ver. Ver implica tomar conhecimento. E que fazemos quando conhecemos as mágoas de outra pessoa? Credo! Pega-se. A tristeza alheia pega-se como praga imunda. Que chore, que se arrepele, arranque os cabelos se lhe aprouver. Mas não incomode os demais, não importune quem não tem culpa de coisa alguma. Felicidade zero. Zero elevado ao cubo.

Feliciano Augusto espreitava a rua todo o santo dia. Nunca as pedras da calçada lhe tinham parecido tão interessantes. Nunca o aspecto lavado e frio da vida que passava lá fora lhe acenara com tanto entusiasmo. Esquecido dos contratempos de toda uma vida, Feliciano Augusto via o mundo e cismava. Cismava que era moço e forte de novo. Imaginava que abria a porta de repelão e se distanciava nas avenidas desconhecidas de uma cidade que parecia a sua, mas era já tão outra nos costumes, no aspecto, até no som que cintilava pelo ar. Pela noitinha a enfermeira trajada de branco entrava mansamente pelo quarto, e com ela vinha todo um cortejo de humilhações e malvadezas. Arrastadeiras geladas, fraldas que trilhavam a carne muito branca da barriga balofa e pregueada, babetes com reminiscências de uma infantilidade senil, pantufas de lã com malhas caídas… Porcaria de existência! Mais lhe valia finar-se de vez! Mas isso é que nada! Queriam-no ali os filhos, os netos. Queria-o ali a impávida cuidadora enquanto lhe preparava a injecção nocturna que o poria a dormitar por oito horas seguidas. Abra a boquinha e coma. Seja um lindo menino. Vamos! Ódio! Raiva. Porca miséria.


Não, não existe poesia na tristeza, nem existe beleza na solidão. Desafio quem venha querer provar o contrário! A melancolia é um veneno a que nos acabamos por habituar. A solidão vai reclamando espaço dentro do nosso peito, empurrando pra os lados aquilo que não a alimenta nem a faz crescer. Quando damos por isso, todo o nosso pobre coração está ausente de conteúdo, falido de essência. Fujam dos vendilhões de emoções tristes! Não queiram parecer na moda adoptando comportamentos desolados, enfastiados, abandonados. Tal conduta é uma afronta para com quem sofre de facto! Sejam fortes e coloquem de lado a visceral tendência que temos de lamentar os outros, quando o que realmente pretendemos é  fazer sobressair os nossos pseudo valores pessoais à custa dos males alheios. Esse costume hipócrita de aparentar falso interesse, ou fingida compaixão pela tristeza de quem nos cerca, serve muitas vezes de alimento para a fogueira do egocentrismo geral. Não existe nada de bom nos sentimentos negativos, e isso é uma certeza incontornável. Se te faz rir, então é bom. Se te faz chorar, faz-te mal e é para evitar.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Serena Gabriela



A Gabriela não fazia ideia de quando começara a perder o medo da morte. Quando era pequena, lembrava-se bem, passava noites inteiras semiacordada, lutando contra a angústia de imaginar que ela, ou alguém das suas relações, pudesse morrer de repente. Mas isso fora há muitos anos atrás. Agora, a Gabriela não tinha medo, e não sabia como vencera esse receio.

Suspeitava que tudo começara ao descobrir que a vida, ambicionada com todas as forças do seu coração, aquela vida de gente grande, cheia de dias imprevistos e vastas possibilidades, não era afinal o que tinha idealizado. Nessas alturas primeiras em que os sonhos se desmoronam mais rapidamente do que um pestanejar de olhos, nesses dias em que as desilusões massacram dentro do peito, a Gabriela dava por si a meditar na morte. Mas não da mesma maneira como o fazia em criança. De certa forma a certeza de que todas as suas desditas teriam um dia fim, a convicção sensata de que nada duraria para sempre, a constatação madura de que esta vida não é uma sentença perpétua e interminável, deixavam-lhe a alma mais tranquila.

Outras pessoas suas conhecidas tremiam a cada vez que se mencionava a hipótese de morrerem. Algumas batiam três vezes na madeira para afugentar o agouro, outras benziam-se apressadamente ou ralhavam-lhe, para que ela parasse de mencionar um tema tão escabroso no meio das conversações banais de um fim de tarde comum. Mas a Gabriela não se importava em abordar o assunto. Que lhe importava morrer? Era inevitável, não? E era quase como que uma libertação, como que um indulto ou uma promessa apaziguadora.

Estranhamente era na ideia da morte, nessa certeza suprema de nada ser para sempre, que assentava a sua sanidade mental. Quando lhe vaticinavam desgraças e problemas, quando era confrontada com desafios quase intransponíveis, ou a cada vez que as forças ameaçavam faltar-lhe para os combates diários, a Gabriela refugiava-se na crença de que tudo iria acabar por passar, pela simples razão de que chegaria o dia em que surgiria um ponto final em todas as provações.

 No entanto, a Gabriela amava a vida. Não nas suas circunstâncias particulares, mas de uma forma geral e mais abrangente. Adorava sentir o vento, saborear o calor, escutar o som indomável das ondas marinhas. O mundo parecia-lhe agora tão belo e tentador quanto lhe tinha parecido aos quinze, ou dezasseis anos. Nesse aspecto nada mudara. Continuava a ser uma diletante nata, uma sonhadora abstracta, uma pluma esvoaçante nos vendavais de um universo ensandecido. Só com a diferença de que agora não se deixava assustar pela grandiosidade de tudo, já não se intimidava frente ao tamanho gigantesco da realidade. Não se sentia tão David lutando contra Golias, pelo simples facto de que não valia a pena desesperar. O tempo acaba sempre por extinguir qualquer dor. As dores, também elas, morrem um dia.

Assim era a Gabriela. Mulher crescida, saída de um rebento precoce que vingou numa planta daninha de beira de rua. Assim era a Gabriela. Forte e fraca, rebelde e submissa. Grande porque ciente da sua pequenez. Imortal porque sabedora da sua finitude. Invejável? Não. Não se pode invejar aquilo que apenas é. Ela não era invejável, era serena. Feita duma serenidade de terramoto quieto. Tinha um vulcão nas entranhas e temporais no olhar. Resumia-se numa ânsia avassaladora de tomar as rédeas da vida nas mãos. Sentia-se um invólucro perecível e insignificante, um envelope prenhe de correspondência celestial ou demoníaca, dependendo do destinatário e da forma de decifrar o seu conteúdo.

Ah, Gabriela, Gabriela!... Rainha e mendiga, virtuosa e pecadora…Tão igual a todos nós, afinal de contas. Todos tão parecidos uns aos outros, apesar das manias de individualidade e separação que nos caracterizam. Irmã Morte… A Gabriela não a temia, nem a buscava. A morte apenas existe e está lá. Um dia chega e pronto… passamos a ser uma imagem em branco intermitente. Apenas assim, intermitente. E que mal há nisso? Mal nenhum. É a vida, apenas a vida.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

História de amor de Pedro e Laica




Chamava-se Laica, e era obviamente uma cadela. Primeiro porque nenhuma mulher se chama Laica, e depois porque apenas as cadelas (e os cães, entenda-se) são capazes daquele amor sem limites e sem fundamento que caracteriza a essência dos melhores amigos do homem.

A Laica era uma rafeira de pelo curto e cor de raposa, pernas atarracadas, olhos meigos e uma cauda que não parava de abanar numa alegria insana por estar viva. Naquele dia o Pedro, mariola de maus hábitos e piores fígados, meteu em cabeça conquistar a Laica. Chamou-a, assobiou-lhe uma melodia de improviso, soltou estalinhos com os dedos, chegou mesmo a acenar-lhe com uma salsicha enlatada, e nada. A Laica, cadela de rua e vira-latas de grande experiência, desconfiada e precavida, mantinha-se a uma distância razoável do rapaz e assistia numa quietude mansa às suas demonstrações de falso afecto e carinho.

Mas o Pedro era arteiro e tantas fez, tanto se insinuou, que a cadelita abeirou-se dele. Hesitante ao princípio, esquiva e sempre preparada para largar a fugir, a Laica foi aprendendo a gostar daquele humano que aparentemente não tinha nojo das suas pulgas, nem se importava com a sua origem rafeira e desvirtuada, tão pouco valorizava a sua ausência de pedigree ou brasões de família, e não se mostrava ofendido com a sua falta de coleira, de donos, de maneiras.

Passou a viver num encantamento, a Laica. De manhã até à noite esperava a chegada do Pedro, que do alto da sua moto barulhenta, ou do cimo da bicicleta desengonçada que amava conduzir como se de um puro sangue se tratasse, lhe fazia uma carícia apressada e destituída de verdadeiro interesse.

Fazer o quê? Ele era assim. A novidade deixara de o ser, a conquista estava consumada e já o enfastiava ter a pequena cadela filada às pernas todo o santo dia. Naquela tarde, o rapazola vinha de mau humor da venda e do paleio com os amigos. A Laica, pobre dela, mal o viu assomar à esquina de todos os dias, lançou-se na costumeira corrida de encontro às suas pernas, na ânsia de receber um afago, ou uma palavra de bom acolhimento.

Porém, nesse dia, o Pedro estava de juízo virado e atirou um violento pontapé de encontro ao focinho da cadelinha.- Some-te perro maldito, que te vazo um olho!!
A Laica, aflita e apavorada, ganindo de dores no focinho, com o coração a estalar de tristeza, desandou de facto. No seu pequeno cérebro de cão não conseguia perceber o que de tão mau teria feito, que justificasse aquele tratamento cruel por parte da pessoa a quem mais amava nesta vida. O Pedro era para ela era mais do que um dono, era o próprio mundo, concentrado ali, naquela figura triste de rapaz de aldeia mal vestido e mal apessoado.

De noite, e já com o ânimo mais tranquilo, o Pedro sentiu a falta da Laica perto da cama dele. Era a cadelita a única criatura vivente que lhe desejava boa-noite, no meio de muitas lambidelas e ganidos de alegria. Era ela que lhe fazia companhia enquanto o sono não chegava, que escutava os seus monólogos solitários de homem solteiro. Sem a presença da Laica, a casa ficava muito mais triste e silenciosa. Sem o familiar raspar de suas unhas no soalho da sala, nem a sensação de segurança que ela proporcionava apenas por existir ali, o Pedro não conseguia adormecer.- Estafermo da cadela! Quem diria que se ia mesmo embora? É a paga por toda a comida que lhe dei, e pelo abrigo que lhe proporcionei este tempo todo! Soubera eu e nunca tinha chegado a perder tempo com ela!...

À medida que a noite avançava, o Pedro ia sentindo mais a falta da Laica, e no dia seguinte, mal o sol raiara, já se encontrava a pé e decidido a reconquistar o apreço da cadela.

Porém a Laica continuava de coração destroçado. Destituída da ardileza e das manhas dos humanos, não percebia a razão que levara o seu amado dono a maltratá-la de forma tão violenta, e mantinha-se indiferente aos apelos de concórdia que o rapaz lhe dirigia.

Houve quem dissesse que o amor de Pedro pela cadela era de facto verdadeiro, uma vez que o viram chorar desconsolado perto do local aonde a Laica o costumava vir buscar ao caminho… Houve quem afirmasse a pés juntos que se tratava apenas de orgulho ferido, e que em poucos dias o Pedro já teria esquecido a cadelita de rua que um dia fora sua.

Mas e a Laica? Ninguém imaginava a vontade que tinha de voltar às boas com o seu dono, de lhe sair ao encontro como dantes, num abandono sem maldade nem interesse. Mas tinha medo. Tudo tinha mudado. Se já não atendia aos chamados, se não respondia com latidos aos assobios do Pedro, não era porque tivesse deixado de gostar dele. Talvez num cantinho recôndito do seu coração canino, a Laica estivesse a aprender a gostar um pouco de si mesma, neste mundo ardente de desencontros e desilusões. Ou, estava apenas com receio de confiar de novo. Nada mais frágil do que os laços de confiança que, quando se quebram, dificilmente se voltam a soldar.


Seja como for, a partir daquela tarde em que o Pedro pontapeara a Laica, nunca mais os dois foram vistos juntos como antigamente. Quem prestasse atenção conseguiria ver a cadela meio escondida por detrás do muro desmanchado de qualquer quintal, quando o Pedro passava. Espreitava-o assim sem ele se dar conta, porque apesar de o temer agora, não deixara de o amar.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"Quem queimou a língua, nunca esquece de soprar a sopa."- provérbio alemão



Todos aguardavam o Verão de São Martinho. Certamente ele viria, como era costume todos os anos desde que os homens tinham consciência desse dia em que se assam as castanhas, se prova o vinho e, diz o povo, se mata o porco. Pelos vistos apenas o porco não deve apreciar muito o folgazão São Martinho...

Bem, todos esperavam o anunciado Verão, menos a Doroteia. Ela sabia que costumes e tradições à parte, o tempo é apenas tempo que passa e pouco mais. Nem calendários, nem lendas populares alteram uma vírgula que seja aos intentos do universo. Podem desmanchar-se os homens em preces e desfazerem-se as velhas beatas em ladainhas, que se não for para fazer sol, ele não surgirá no horizonte por muito que no calendário se grite que é São Martinho. A Doroteia olhava os preparativos para o magusto com o mesmo descaso com que observava os cães vadios que passavam todos os dias por baixo da sua janela. Deixá-los, pensava. Não era supersticiosa, nem crente. Costumava dizer de si mesma que não era nada de definido. Sobre ela tinham os anos rolado em passo de caracol, sem que uma só beliscadela lhe anuviasse o semblante de prima-dona. Deixá-los, deixá-los.

- Vem, Doroteia!- bradavam-lhe da cozinha.- Já estão as brasas altas, vão-se deitar as castanhas a assar!!
E toda a tarde era um corrupio de subidas e descidas nas velhas escadas de madeira que serviam a cozinha. Tabuleiros de febras primeiro, febras assadas e cheirosas, tabuleiros de castanhas depois, castanhas quentes e boas, a estalarem nas cascas crocantes, passavam frente à Doroteia que, num pasmo desconsolado tudo via, e por nada se interessava.
Que lhe importavam as comidas diferentes e os dias especiais? Para ela era sempre Inverno frio. Para ela nunca o dia começava de forma animadora, nunca as horas se lhe apresentavam de forma agradável e convidativa. Para quê querer saber? Deixá-los.

E o São Martinho passava. Vinha o Natal, a consoada com os seus preparativos mágicos e impregnados de uma nostalgia que ela não percebia. A passagem de ano... Festejar com que finalidade? O ano passa sozinho. Não existe necessidade de tanto frenesim.

As pessoas aceitavam-lhe a indiferença, e não se afligiam com as suas excentricidades. Familiares e amigos mais chegados já tinham como certo que com a Doroteia não se podia contar para nada que fosse festividade. Nem todos podemos ser iguais, diziam em sua defesa quando alguém a acusava de ser bicho do mato.

O mundo é assim, por vezes permite-nos ser quem somos, desde que, claro, não incomodemos ou importunemos ninguém com as nossas esquisitices. A Doroteia, pobre dela, não servia de estorvo a pessoa alguma. Limitava-se a ver a vida passar na segurança da sua zona privada. Não a estimavam, é certo. Mas também ninguém lhe queria mal. Era uma simpática nulidade, inofensiva e até bastante decorativa, segundo algumas opiniões masculinas.

Então porque estamos a perder tempo com a dita senhora?, quererão vocês saber. Pois bem, a verdade é que alguém descobriu que a Doroteia afinal festejava sim, mas sozinha e dentro de portas. Quando a cortina descia sobre a sua janela escancarada, a Doroteia assinalava as efemérides como qualquer outra pessoa. A diferença é que gostava de o fazer de forma privada e intimista. Vivia sozinha, fazia as suas festas sozinha… pois, faz sentido.

Engraçado foi que mal este segredo bem guardado deixou de o ser, a opinião pública passou a encarar a Doroteia de forma totalmente diferente. Já não era a pacata mulher que não gosta de novidades. Era agora uma criatura dissimulada, egocêntrica e manipuladora. Até aqueles que a conheciam há mais tempo faziam coro com as críticas generalizadas. Fingia, mentia, representava. Mostrava uma face, e afinal era outra bem diferente! Escândalo, infâmia! Fogueira com a bruxa! Ah, se estivéssemos nos tempos da Inquisição!...


Vá lá alguém perceber o mundo, não é verdade? Julgam-nos não pelo que de facto fazemos, mas pela forma como deixamos transparecer aquilo que somos. O mesmo acto pode ser louvado, ignorado ou amaldiçoado, dependendo da exposição que tiver. Que se dane isso! Às urtigas todos esses espartilhos mundanos! Viva a Doroteia que malgrado todas as intrigas festeja hoje o dia de São Martinho, apesar de ainda faltarem dois dias para tal acontecer de facto. Viva ela que faz as suas festas, e constrói o seu calendário! Hip, hip, hurra! E lá vamos nós comendo pelas beiras, soprando a sopa que está quente, num receio piegas de queimar as beiças…

terça-feira, 31 de outubro de 2017

"Agora é tarde. A Maria é morta.




Quando naquele dia a Maria Andrade da Silva saiu de casa sabia que ia morrer. Certo, dirão vocês. Todos sabemos que vamos morrer, e daí? Pois, mas a Maria sabia exactamente que aquele era o dia em que ia falecer. Como?? Porque ela mesma escolhera aquela data para se suicidar.

Era mais uma tarde em que a rua serpenteava languidamente frente aos olhos dos transeuntes. “Todos têm uma rua, a que chamam sempre sua…” Conhecem estes versos? São lindos! Mas para quem não tem nenhuma rua a que chame sua, podem ser os versos mais tristes do mundo. A Maria não tinha nenhuma rua que fosse sua de facto, mas em troca todas as ruas, ruelas e avenidas lhe tinham sido deixadas em herança. Se o pai ao desencarnar não lhe deixara testamento lavrado em cartório, deixara-lhe ao menos aquele gosto característico dos Andrade da Silva por passear, andar, caminhar. A Maria era uma passeante nata, e aquele era a rua aonde costumava passear nos últimos vinte anos.

O mais curioso foi que ninguém das suas relações se apercebeu de que aquela podia ser a última vez em que a Maria descia a rua. Nada nas suas maneiras, no seu sorrir ou modo de andar denunciava, ainda que suspeitosamente, que ela levava já em mente terminar com a vida. Balanceava as ancas num ritmo que era só dela, e que fazia os homens salivar. Sacudia a longa crina morena como era seu hábito fazer. No decote espreitava como era usual o volume harmonioso dos seios, e no requebro da cintura esbelta anunciavam-se mil promessas e ousadias. A Maria era linda! Uma linda mulher.

O que pensaria naquele preciso momento em que pela derradeira vez se cruzava com rostos conhecidos de todos os dias? Será que formulava um voto de despedida a cada um? Dirigiria uma prece silenciosa em favor dos aflitos, dos tristes, dos abandonados? Pretenderia consolar ainda alguém com um final arremedo de ternura? Escutaria os costumeiros galanteios, experimentaria alguma espécie de prazer em sentir-se cortejada?

Temos a tendência de pensar que se esta, ou aquela outra coisa tivesse acontecido, poderia ser o bastante para que fulano, ou sicrano não se matasse. E no caso da Maria? O que se poderia ter passado para que ela mudasse de ideias naquela tarde? Acreditar que pode estar nas nossas mãos salvar alguém é incrivelmente assustador. Se acreditarmos piamente nessa premissa, damos por nós a caminhar na vida em pezinhos de lã, sempre à escuta, à espreita… Se crermos que de um gesto nosso, pode depender acrescentar alguns anos na existência de um nosso semelhante, como será possível continuar a levar a mesma vidinha despreocupada de sempre?

Não sei o que teria sido necessário acontecer para que a Maria colocasse de lado a ideia fixa de cometer suicídio. Nem sei tão pouco de nenhuma razão concreta que ela pudesse ter para desejar um ponto final definitivo. Bonita, inteligente, sensível, simpática, afável, generosa, sempre pronta para escutar, apoiar e animar qualquer pessoa, a Maria era uma mais preciosidade para quem tinha a boa sorte de a ter como amiga.

Apesar de todas as evidências que pudessem indicar o contrário, o certo é que a Maria queria morrer, e aquela tinha sido a tarde eleita entre todas as outras tardes, manhãs e noites, para ser a última tarde da sua vida. Não é que fosse uma fixação nova, nada disso. Desde há muito tempo que a Maria equacionava seriamente a hipótese de desaparecer. Desligar o interruptor, descansar, desistir. Parar de sofrer. Só não o fizera antes por causa da teimosa esperança que sempre tinha, de que tudo pudesse ainda ficar diferente. No fundo queria que a vida se assustasse com o desalento dela, e que por medo de a perder, retirasse de dentro da cartola a felicidade com que sonhava.

Enquanto supôs que essa felicidade tão esperada era possível, a Maria foi aguentando. Contrariedades, desgostos, perdas e desilusões iam-se abatendo sobre ela, como águas de um mar revolto de encontro aos rochedos. Ela aguentava. Más palavras, modos bruscos, planos gorados sucediam-se numa cadência de fazer dó, mas ela suportava. Suportava tudo, a Maria. E o mais irónico é que ela suportava um peso que ninguém mais conhecia.

As pessoas viam-na sorrir, e acreditavam-na feliz. Como é simples iludir quem se quer deixar iludir! Como é fácil aparentar que não se quer, não se está, nem se é, quando os espectadores em volta estão mais preocupados em contemplar o próprio umbigo do que inclinados a prestar atenção aos problemas alheios. Alguém nos dá os bons dias e nos pergunta de forma automática como estamos. Para que perguntam se seguem o seu caminho logo em seguida? Para que perguntam se não querem saber? À Maria muita gente perguntou se estava bem, quiseram saber como tinha passado... Mas ninguém se deteve o tempo suficiente para esperar pela resposta.

Ah, estamos então a especular!, dirão alguns de vocês. Especulamos sobre se a Maria não se teria morto caso surgisse alguém confidente pelo caminho!...Especulamos sim!, digo eu. Especulamos porque isso é tudo o que nos é dado fazer. Especulamos porque agora é muito tarde, tarde demais.

Remorsos? Deveríamos sentir remorsos por todas as Marias que se cruzam connosco a caminho da morte, e a quem não damos oportunidade de desabafar? Mas então para que servem os psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e todo esse exército prestimoso de anjos e fadas prestáveis e acessíveis, com todo o seu séquito de remédios, calmantes e panaceias? Sim, para que serviriam eles, se nos coubesse a nós, ignorantes mortais refazer os pedaços amachucados da alma dos outros? E os sofás com cheirinho gostoso de bom cabedal, ficariam sem préstimo? E o relógio que faz tique-taque com hora marcada para ressoar, seria atirado negligentemente para o fundo de uma anónima gaveta? Ná! Não temos que ter remorsos, ou dor no coração pelos que escolhem partir. Este mundo é uma selva. Cada um por si. Temos que cuidar já de nós, dos nossos! Uma canseira! Ter ainda que prestar atenção ao sofrimento dos outros? Que se curem, que se tratem, e em última instância que vão morrer longe, para não cheirarem mal perto dos nossos imaculados lares modernos e tecnológicos!!...

Pois, mas e quando a Maria é um dos nossos, um de nós? E quando a Maria que passa por nós, ágil e airosa a caminho da morte, na sua blusa decotada é a nossa mãe, a nossa irmã, a namorada querida? E quando a Maria é Manuel e assume o rosto do nosso pai, do nosso marido, do nosso filho amado? Há pois, porque as desgraças não acontecem só aos outros!... Todas as Marias são a Maria de alguém...

Naquela tarde houve pranto e lágrimas em casa da Maria. Quando ela não apareceu à hora costumeira, e quando dela só sobrava uma carta de despedida deixada com timidez na mesa de cabeceira, o mundo dos Andrade da Silva desabou. Mas porquê? Porquê, santo Deus? Se ela tinha tudo, se não lhe faltava nada!... Vá-se lá saber, vá-se lá saber...
Um amigo meu, especializado na área da psicologia humana, disse-me um dia que quando existe a verdadeira intenção de suicídio, podemos até tirar a faca da mão do suicida, mas à primeira oportunidade ele vai tentar de novo. O suicídio nem sempre encontra explicação entre as probabilidades lógicas, e obviamente que não é culpa de ninguém quando alguém decide colocar termo à própria vida. Não está nas nossas mãos evitá-lo, é certo. Mas desde que a Maria se matou, o peso e a sensação de culpa tomaram conta de todos os familiares e amigos mais chegados. Uns recordam-na como a mulher risonha e bonita que era, outros lembram-se dela como a amiga altruísta e sempre disponível que foi. Há quem conserve na lembrança o som cristalino da sua gargalhada, a forma amorosa como encarava o pôr-de-sol, a delicia que provocava quando pousava a mão fresca e esguia numa qualquer fronte febril.

A maioria dos conhecidos da Maria, que se cruzaram com ela naquela tarde fatídica entre todas as tardes, não consegue esquecer a forma elegante como desceu a rua que não era dela, mas que era tão sua. Nenhum deles sabia que era a última vez em que a viam. E se tivessem sabido?

Nunca sabemos de facto se aquela é a última vez em que vemos alguém que nos é querido. Não conseguimos segurar quem gostamos à força de carinhos e abraços, mas podemos assegurar que se eles se forem amanhã, a recordação que guardaremos desse último encontro será a melhor possível. Todos temos Marias e Manuéis em casa. Sabe-se lá se algum deles, dos nossos, não medita em silêncio sobre a sua última tarde entre nós?

Vamos aproveitar as pessoas de quem gostamos enquanto as temos! Só somos grandes e especiais aos olhos de quem nos quer bem. A cada pessoa querida que nos morre, é como se nos cortassem centímetros de altura e fôssemos encolhendo, minguando de tamanho e de importância, até nos tornarmos pequenas migalhas que o vento dispersa e os pardais enjeitam. Vamos perdendo representação e estatura até sermos uma Maria que se senta e escreve a carta de despedida, sai depois para a rua que não é sua, e caminha a passo compassado para a morte.


P.S. Tu que tens uma Maria e um Manuel dentro de casa...Tem paciência connosco. A vida passa depressa, só mais um pouco e estamos de partida.