sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Inocência das pessoas



Às vezes vejo a inocência nas pessoas,
e quase sem querer gosto delas.

Vejo o olhar receoso,
o sorrir nervoso…
Um gancho no cabelo colocado com zelo.
Aquele medo de não ser aceite,
e a vontade tola de que gostem de nós.

Vejo o desejo absurdo de agradar.
Vejo a contenção nos suspiros cautelosos,
nas respirações apenas adivinhadas.

Que tontas são as pessoas!

E que pueril candura se esconde em cada gesto estudado.
Mesmo quando fingem, mesmo quando representam,
as pessoas são mais puras do que aparentam.

Gostam de parecer sofisticadas,
superiores,
complicadas…
Mas não.
Não são.

Quase sempre transparentes,
as pessoas inocentes são imaginação e coração,
são coragem e terror.

Às vezes vejo a inocência nas pessoas,
e sinto-me menos sozinha.
Sinto que não é só minha esta forma de ser.

Pessoas…
Tentáculos da mesma planta.
Um todo que do chão se levanta,
E no ar se escoa.


A bruxa das batatas, e das moeditas




Juntámos todas as moedinhas,
mesmo as mais pequeninas.
Reunimos o suficiente para meia dúzia de batatas.
Batatas com ossos,
ossos com o raio que os parta.

Contentes levámos o nosso pequeno tesouro.
Meia dúzia de tostões que para nós eram ouro.

Calculámos o peso dos tubérculos.

Uma, duas, três, vá lá quatro batatas rosadas e bonitas.
Um quilo? Sim?
Chega, obrigada.
E apresentámos as moeditas.

A mulher era velha e feia.
Tinha uma verruga no olho,
a fazer lembrar um treçolho.

Vestia toda de preto,
o nariz grande e erecto,
os cabelos farripas embranquecidas,
as rugas crateras desconhecidas.
na boca valetas como fossas abertas.

Foram pedir esmola à porta da Igreja?
Não quero cá porcaria desta!

E nós que na altura não sabíamos de direitos,
nem esgrímiamos mais valias,
só conhecíamos o mundo das ruas,
só sabíamos a fome que tínhamos,
viemos embora sem as batatas.
Foram inúteis as nossas moedinhas.

Nessa noite os ossos com nada,
foram ainda mais rijos,
mais raios que os parta.

A bruxa, essa deve ter dançado num sabat de feitiçarias.
Velha malvada!
Que se empanturre de batatas,
Em caldeirões temperados com ervas daninhas!



P.S. Por muitos anos que viva, nunca vou esquecer o dia das batatas, e das moedinhas.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Maningue xunguila (muito bonita)



Na quente noite africana, corpos nus dançam.
Transpiração misturada com sangue e lágrimas.
O tambor ecoa aonde as hienas bebem, nos charcos parados.
No mato os leões rosnam e aprovam.
Os elefantes derrubam arbustos enquanto escutam.

África fala.
África dança.
Mãe, olha nós...

Negros, brancos, mulatos,
filhos sem mãe,
mortos vivos, errantes e amaldiçoados.

A carapinha embrulha-se nos cabelos menos ondulados,
a catinga cheira a perfumes caros.
As mamanas exibem seios perfeitos e bem cuidados.
Os madalas não querem ser grisalhos,
e os mufanitas viraram pirralhos.
Os ventres estão fecundados,
mas os rebentos são bastardos.

Na noite quente, África dança.
África rebola nos traseiros ensandecidos dos feiticeiros que oram.
Mãe, olha nós...

Há quem diga que és mulher da vida.
Que te vendeste, estás perdida.
Outros dizem que continuas uma cabrita bonita,
o corpo negro coberto de capulana e chita.

Mas tu, indiferente a todos danças.
E pulas.

Pára África, pára com a tontaria!
É noite, está escuro,
E o capim está prenho de satanhocos impuros.
A cacimba cai com nostalgia.

Deixa nós subir...
vamos cair no batuque maningue xunguila.
M’arrebenta o corpo numa toada feita de loucura…

Não nos renegues Mãe!
Mãe África dança.



P.S. África dos meus sonhos e das minhas saudades, kanimambo, hambanine e até um dia

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Hoje não!



Hoje estou cansada.
Cansada de fazer comida que ninguém vai comer.
Cansada de limpar o pó que ninguém quer ver limpo.

Hoje estou cansada.
Cansada de acreditar que existem contos de fada.
Cansada de perseguir ainda sonhos e fantasias
Quando devia ter juízo e sensatez.

Tão cansada!

Amanhã estarei melhor talvez.
Amanhã terei de novo forças para batalhar.

Mas isso é amanhã,
Porque hoje não quero mais nada.
Preciso de ficar encolhida no meu cantinho, a chorar baixinho.
Preciso de escutar o barulho que o tempo faz ao passar.
Tic-tac, tic-tac…

Tudo tão inútil!
Tudo tão vazio.

Não bulam comigo,
Não me apoquentem, nem me chamem.
Não estou para ninguém.
Fugi, desertei por esta vez apenas.


Hoje estou muito cansada.

Para o meu filho:




Os muito novos julgam muito depressa.
Por favor, meu filho não tenhas pressa.
Existe muito mais para além daquilo que vês.
Nem tudo na vida pode ser posto em conversa.

É bem capaz que só percebas lá mais para a frente,
mas no mundo existe muita gente que não quer saber da gente.

O verdadeiro valor de uma pessoa,
está no seu coração,
na sua cabeça.

Não importa se alguém só é bom porque nem sabe ser mau.
Quantos maus têm capacidade para serem bons, e não o são?

Dá valor a quem te quer bem.
Estima quem te apreça.
Aceita o afecto que te oferecem,
porque afecto não abunda por aí.
Nunca faças pouco caso de alguém que gosta de ti.

Abstém-te de condenar,
não és ninguém para apontar.
Quem te deu a incumbência de sentenciar?

Um dia aqueles que julgas
já foram como tu,
novos,
bonitos,
com sonhos e esperanças.
Foram crianças.
Que sabes tu sobre o que a vida lhes fez?
Consegues identificar um dos porquês?

Lembra-te que a vida é uma hora que passa,
olha para quem te espreita atrás da vidraça.
Beija quem te espera,
abraça quem te abraça.

E vais ver como um dia eu ainda te provo que existem Leões do Niassa!!...




P.S. Era tão bom se os jovens conseguissem prever os remorsos que vão sentir, por aquilo que agora deixam de fazer!...

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Loiça amarela



Naquele dia,
A noite viera mais cedo.
Nem era escuro ainda,
Mas a luz fugia.

Era antiga aquela mania de nos deitarmos com as galinhas.
Ainda lá fora a vida acontecia,
E já em casa a noite descia.

Naquele dia voaram pratos e canecas.
Voaram bonecas e quinquilharias.
O ruído da loiça a partir encheu o fim de tarde.
E era um mar amarelo de cacos espalhados.
Atirados do quarto andar,
Partidos com a raiva de uma vida.

A boneca chamava-se Paulinha,
E era minha.

A boneca tinha cara de prostituta,
Por isso voou pela janela,
Foi morrer perto da loiça amarela.

Naquele dia foi um inferno.

Os gritos eram tantos,
Que até as montanhas estremeciam.
(Mas também quando somos pequenos,
Qualquer tamanho nos parece em demasia…)

Vinha tudo da metrópole,
Viera tudo amaldiçoado,
Por isso os cacos eram por todo o lado.

Esperei que passasse,
Porque sempre acabava por passar.
Lá dentro ouvia a minha mãe chorar.
Porque sempre acabava por chorar.

Amanhã de manhã podia começar a contar.
A contar os dias até eles voltarem a falar.

Se ao menos todos se dessem bem,
Que bom que seria!...



P.S. No dia seguinte, os montes de loiça amarela partida reluziam na terra do lixo, para aonde atirávamos os sacos de plástico atados assim que escurecia.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Mascote



O Mascote tinha ficado para trás,
Quando a dona morreu,
E o dono se perdeu num tanto me faz.
O Mascote foi deixado,
Esquecido, e abandonado.

Herdámo-lo juntamente com os tarecos velhos,
As mantas bolorentas,
E o frio nos artelhos.

Fugidos de casa,
Sem pátria e sem lar,
Éramos parecidos ao Mascote.
Gato velhote,
Zurzido a chicote.

Ele miava noite e dia,
Numa dolorosa agonia.
Chamava pela dona,
Clamava por companhia.

Nós chorávamos em silêncio,
Orávamos em segredo.
Até dos foguetes tínhamos medo.
Escondidos da curiosidade das vizinhas
Jantávamos côdeas,
E ele espinhas.

O Mascote velhote
Foi-se embora um dia.
Acho que se cansou de esperar,
Desistiu de acreditar.
Ficámos sem a sua companhia.

Quem se encontra órfão sofre melhor em conjunto.
Ele era órfão de dona,
Nós éramos párias do mundo.




P.S. O gato Mascote, na verdade chamava-se Pirilau, mas achei melhor mudar-lhe o nome para  algo mais harmonioso. E não se foi embora, morreu de saudades.